
Apenas o viu. Paralisou. E com um livro da Lispector em mãos, suas pernas tortas congelaram ali, como se as solas furadas dos seus sapatos de boneca tivessem concreto. Permaneceu durante dez segundos assim, sentindo a voragem passar em seu rosto, fazendo com que o cheiro das páginas amareladas de Clarice vingasse naquele ar, ar este que ela dividia com ele, por ele. 
Aquele era um dos seus sebos prediletos, tinha dois andares repletos de memórias, toques, vidas, e por que não paixões, naquelas páginas misteriosas das quais não conseguiria descobrir quem as leu. Se era velho, jovem, alto e com a barba pra fazer, se lhe doía também toda vez que lia algum trecho da mulher blasé de olhos puxados. Sua Lispector, e de muitos outros.
''Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto — uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.''
Quando lia ''Os desastres de Sofia'', não tinha como deixar de imaginá-la na face e no corpo da personagem literária. Seria Sofia um desastre da vida? Ela gostava dessa idéia toda sobre ser catastrófica, é uma característica dos ruins, das moças que pintam os lábios de vermelho e fazem sexo até suar. Enquanto ela pensava consigo, lá estava ele, de pele muito branca, tão clara que aparentava uma esquisitice bela, ela gostava assim, do meio bonito, a perfeição é entediante. Além do mais, um garoto com sardas e que gostava de livros, era o bastante. Não, talvez não fosse, além das gotas de mel pela pele muito branca e bom gosto literário, ele tinha um rosto quadrado que o deixava mais viril e boca pequena, em tom rosado.
Finalmente decidiu parar de sonhar e perguntou ao vendedor se ali não vendiam quadrinhos do Crepax, quando o belo abriu atentamente seus grandes olhos claros - azuis, verdes, já nem sabia mais - e paralisou-se também. Seria muita ousadia uma menina de pernas tortas e sapatos de boneca furados gostar deste tipo de arte? Um paradoxo, mas olhando bem, o corte de cabelo dela se parecia com o da Valentina, a tão libidinosa personagem dos quadrinhos.
Então ele pensou que talvez ela pudesse gostar de Nelson Rodrigues, ou quem sabe poderia chamá-la para um café com bastante espuma e biscoito de maçã e ler alguns trechos do Henry Miller. Poderia soar grosseiro, já que o Henry não tem papas na língua. O que poderia ler para uma menina desastrosamente bela - ele também se entediava com o bonito demais - com fios negros parecidos aos de uma atriz de cinema mudo, em seu corte chanel, com unhas roídas de aflição e cólera pela ignorância alheia e que ainda por cima segurava um livro da Lispector em suas pequeninas mãos?
Ele se aproximou de sua pele branca, lisa, que se iluminava entre medíocres pintas. Fixou-se dentro dos olhos castanhos dela e lhe disse em voz baixa, quase sussurrando:
"Mas de repente estavam sentados no Chalé com dois chopes um em frente ao outro, e ela dizia que as nuvens pareciam o saiote de uma bailarina de Degas''
Quando ela, assustada, ainda sim completou astuta:
''Ele acendeu um cigarro e ela outro e ele viu que ela havia mudado para Continental com filtro e que antigamente era Minister, Minister, gola role preta, olheiras e festivais de filmes nouvelle vague no Rex ou no Ópera, e ela odiava Godard, só gostava do trecho onde Pierrot le fou sentava numa pedra e Ana Karina vinha caminhando pela praia gritando que se há de fazer, não há nada a fazer, rien à faire e assim por diante."
E num ato heróico tocaram-se, mãos pequeninas e mãos com sardas, dedos entrelaçados, dois em um só. Ela o amava a partir daquele toque, era dolorido demais, ele penetrava as entranhas de sua infância. Ele era a personificação da sua primeira paixãozinha dos tempos de escola, do primeiro garoto que audaciosamente - mergulhado em ira - maltratava-lhe puxando seus cabelos alaranjados de menina com um prazer insaciável que só os ruins têm.

Aquele era um dos seus sebos prediletos, tinha dois andares repletos de memórias, toques, vidas, e por que não paixões, naquelas páginas misteriosas das quais não conseguiria descobrir quem as leu. Se era velho, jovem, alto e com a barba pra fazer, se lhe doía também toda vez que lia algum trecho da mulher blasé de olhos puxados. Sua Lispector, e de muitos outros.
''Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto — uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.''
Quando lia ''Os desastres de Sofia'', não tinha como deixar de imaginá-la na face e no corpo da personagem literária. Seria Sofia um desastre da vida? Ela gostava dessa idéia toda sobre ser catastrófica, é uma característica dos ruins, das moças que pintam os lábios de vermelho e fazem sexo até suar. Enquanto ela pensava consigo, lá estava ele, de pele muito branca, tão clara que aparentava uma esquisitice bela, ela gostava assim, do meio bonito, a perfeição é entediante. Além do mais, um garoto com sardas e que gostava de livros, era o bastante. Não, talvez não fosse, além das gotas de mel pela pele muito branca e bom gosto literário, ele tinha um rosto quadrado que o deixava mais viril e boca pequena, em tom rosado.
Finalmente decidiu parar de sonhar e perguntou ao vendedor se ali não vendiam quadrinhos do Crepax, quando o belo abriu atentamente seus grandes olhos claros - azuis, verdes, já nem sabia mais - e paralisou-se também. Seria muita ousadia uma menina de pernas tortas e sapatos de boneca furados gostar deste tipo de arte? Um paradoxo, mas olhando bem, o corte de cabelo dela se parecia com o da Valentina, a tão libidinosa personagem dos quadrinhos.
Então ele pensou que talvez ela pudesse gostar de Nelson Rodrigues, ou quem sabe poderia chamá-la para um café com bastante espuma e biscoito de maçã e ler alguns trechos do Henry Miller. Poderia soar grosseiro, já que o Henry não tem papas na língua. O que poderia ler para uma menina desastrosamente bela - ele também se entediava com o bonito demais - com fios negros parecidos aos de uma atriz de cinema mudo, em seu corte chanel, com unhas roídas de aflição e cólera pela ignorância alheia e que ainda por cima segurava um livro da Lispector em suas pequeninas mãos?
Ele se aproximou de sua pele branca, lisa, que se iluminava entre medíocres pintas. Fixou-se dentro dos olhos castanhos dela e lhe disse em voz baixa, quase sussurrando:
"Mas de repente estavam sentados no Chalé com dois chopes um em frente ao outro, e ela dizia que as nuvens pareciam o saiote de uma bailarina de Degas''
Quando ela, assustada, ainda sim completou astuta:
''Ele acendeu um cigarro e ela outro e ele viu que ela havia mudado para Continental com filtro e que antigamente era Minister, Minister, gola role preta, olheiras e festivais de filmes nouvelle vague no Rex ou no Ópera, e ela odiava Godard, só gostava do trecho onde Pierrot le fou sentava numa pedra e Ana Karina vinha caminhando pela praia gritando que se há de fazer, não há nada a fazer, rien à faire e assim por diante."
E num ato heróico tocaram-se, mãos pequeninas e mãos com sardas, dedos entrelaçados, dois em um só. Ela o amava a partir daquele toque, era dolorido demais, ele penetrava as entranhas de sua infância. Ele era a personificação da sua primeira paixãozinha dos tempos de escola, do primeiro garoto que audaciosamente - mergulhado em ira - maltratava-lhe puxando seus cabelos alaranjados de menina com um prazer insaciável que só os ruins têm.
3 palavra(s).:
Então, "quando Paris cintila". Eu gosto ("não gostei" porque ainda não terminei de ler). Não sei se serão lás as crônicas que você quer. Mas são. Simples e curtas. Quanto ao seu novo escrito, não comentarei ainda. Para isso o imprimi. :} Para ter atenção.
Vislumbro a cena mas me perco no cenário, que pode ocorrer em quaisquer sebos menos nos daqui, sobre os quais reina não somente a pecha mas toda as razões que os tornam vagabundos e marginais; diz-se que por aqui, mais do que carros/motos, roubam-se livros, e esses livros vão parar nessas estantes para serem vendidos por notas que nem sempre justificam o valor de sua literatura. Valor tamanho que se pode encaixar, como fizesse com rara eficiência, elementos próprios e transcritos de outrem - da envergadura duma Clarice, dum Caio Fernando -, de modo a construir algo novo e com visão própria. Tu tem mesmo a manha, tô até na sua comunidade. Um beijo, até mais ver.
Isso que nem macarrão !
: É MASSA ..
Piada ruim minh a!
Mas o post ´ta sensacional !
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